Mas me diga: qual é a sua areté?
Natacha Machado, Rio de Janeiro
O modelo grego de educação tinha um conceito muito interessante que era desenvolver a areté.
E o que é areté? Areté, do grego antigo ἀρετή, é um termo utilizado para designar a principal virtude de cada um, virtude essa que você estava designado a ter. Seria próximo a algo que hoje nós chamamos por dom ou talento. Mas na sociedade atual, quando nos referimos a dom, estamos falando sempre de maneira subjetiva, algo que foi dado pelo divino à você, "você tem dom na cozinha", "você tem talento para a música", etc. O conceito de areté é mais específico, porque não trata tanto da subjetividade, de algo dado por um deus, trata das qualidades que uma pessoa tem em essência, assim como a cor dos olhos e a cor do cabelo, por exemplo. Dentro desse conceito de areté, todos nós temos aptidões inerentes que são fundamentais para contribuir para o desenvolvimento da sociedade. Logo, os gregos pensavam na educação como algo que tinha por objetivo desenvolver a areté de cada um e desenvolviam isso na paidéia, παιδεία, que nada mais era do que o sistema escolar e de formação ética dos cidadãos gregos em busca de formar um cidadão perfeito e, para se ter um cidadão perfeito, era preciso trabalhar nele a sua areté.
Pensando nesse conceito, será que as escolas da nossa atualidade estão pensando em desenvolver a nossa areté? Sem dúvida, o modelo escolar visa te dar uma base para as escolhas profissionais que você vier a fazer no futuro - tá, vai lá, nem todas as disciplinas oferecidas visam isso, falta muita disciplina nesse currículo -, mas está desenvolvendo a nossa areté? Nós saímos da escola conscientes da nossa areté? Acho que nesse quesito todos nós seremos unanimes em dizer "hummm... não, exatamente". Até mesmo porque, nosso atual modelo escolar, as aulas são ministrada da mesma maneira para todos: a aula é a mesma, a metodologia é a mesma, a abordagem é a mesma e esse sistema se repete ano após ano. Você sai de uma série e na próxima série você vai aprender a mesma coisa, da mesma forma que aprendeu o aluno que cursou a série antes de você. E é muito importante salientar que uma sociedade evoluída precisa necessariamente de cidadãos aptos a atuarem nas mais diversas áreas. Então, por que ensinamos igual para todos se todos precisam ser diferentes para que cada um cumpra uma função a fim de assegurar um bom funcionamento da sociedade?
Esse é um debate muito importante a ser feito porque o nosso modelo escolar segue obsoleto. Não por má vontade dos educadores, reitero, mas há uma política que se esquece do desenvolvimento humano e esquece que é justamente o desenvolvimento humano o principal pilar para o desenvolvimento econômico e social. Sempre que o país trava um debate sobre educação, as pautas giram em torno das questões externas da escola: reformar as escolas, criar escolas, melhorar os salários de professores, etc., e se esquecem da formação do indivíduo. Como um aluno vai descobrir as suas melhores qualidades se ele fica horas enclausurado em uma sala com atividades dirigidas sem sequer ter a oportunidade de descobrir o seu próprio eu? Como um professor vai trabalhar as melhores qualidades dos seus alunos se as turmas tem 20, 30, 40 alunos? E começamos a ver, portanto, que o nosso modelo educacional tem deixado de lado as questões das mais relevantes quando pensamos na escola enquanto formação de indivíduos que farão parte do desenvolvimento social.
É preciso retornar às origens, pensar os motivos de a nossa sociedade ter criado uma instituição chamada escola como ferramenta no processo de formação do indivíduo e, a partir disso, pensar e repensar na melhor maneira de aplicá-las. Se todos os indivíduos estivessem desenvolvendo a sua areté, certamente a nossa sociedade estaria muito mais desenvolvida do que está agora, afinal, se extrairia de cada um o que cada um tem de melhor a oferecer e se todos estão oferecendo o seu melhor, em conjunto, toda a sociedade evolui da melhor da melhor maneira.
Mas e você, já pensou? Qual é a sua areté?
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*Trabalho feito pela discente em Letras Português-Latim Natacha Machado dos Santos da Universidade Federal do Rio de Janeiro em caráter de exigência da disciplina Filosofia da Educação ministrada pela professora doutora em Filosofia pela USP, Gisele Batista Candido da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Referências Bibliográficas:
- Jaeger, Werner. Paidéia, a Formação do Homem Grego. Martins Fontes, São Paulo: 1995
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