O saber e seu paradoxo.

 Marcella Pereira e Maria Catarina Brandão, Rio de Janeiro

Nesta postagem abordaremos as concepções do filósofo Sócrates acerca da educação. Nesse sentido, o ponto principal do pensamento socrático e dos sofistas envolvia o questionamento de como saber educar e preparar as pessoas a fim de se viver em sociedade. Entenderemos como ocorreu o desenrolar desse questionamento e um pouco mais de suas visões sobre o funcionamento do método pedagógico. 

Além disso, também analisaremos as concepções de Sócrates sobre a relação entre o método pedagógico e as práticas realizadas na educação à distância, com o objetivo de buscar uma formação mais humanitária e libertadora para seus alunos. Desse modo, podemos constatar desde já que o tópico “educação a distância” (EAD) não é tão novo assim, fazendo um paralelo com os saberes do filósofo e o desafio que estamos enfrentando desde o ano de 2020 com a COVID-19. 

O filósofo Sócrates nasceu e viveu toda a sua vida em Atenas no período clássico da Grécia Antiga e foi intitulado como um dos criadores da filosofia ocidental. Nesse sentido, é conhecido primordialmente até os dias de hoje por sua máxima “só sei que nada sei”, sendo intitulada muitas vezes como “paradoxo socrático”. Desse modo, a frase indica que é sábio reconhecer a nossa ignorância, além do fato de que quanto mais aprendemos, mais questionamentos nascem para descobrirmos. 

Sob uma primeira análise, podemos entender apenas por sua máxima que ele possuía uma relação extensa com a educação. Nesse contexto, para Sócrates, era necessário revisar o sistema educacional que preparava o jovem para ser guerreiro, isto é, ter uma boa e gloriosa morte em um campo de batalha. Também era preciso rever o fato dos ensinamentos morais e intelectuais serem objetos acessíveis apenas aos considerados de sangue puro e divino, uma vez que a educação naquela época estava longe de ser para todos. Desse modo, o filósofo entendia que o método pedagógico usado na Grécia Antiga estava ultrapassado e defendia a alteração de seu objetivo com o intuito de preparar as pessoas para viver plenamente o sistema democrático que vigorava na Polis. Nessa lógica, para colocar em prática seu modelo educacional, ele promovia diversos debates em praça pública, onde o saber era disseminado por meio da oposição da argumentação e oposição de ideias. Com isso, fez com que a educação assumisse o papel de responsável pela formação humanística, pelo uso da palavra e argumentação. Aliado a isso, é importante sabermos que a principal proposição da educação para Sócrates está presente do diálogo, ele o via como o método de investigação ou de esclarecimento mais profundo de certas perguntas e indagações. 

Aliado a isso, trabalharemos em segunda análise nesse material a relação que Sócrates possuía com o método de educação à distância (EAD). Nesse sentido, a princípio essa relação pode soar um tanto quanto estranha para muitos, uma vez que como pode um filósofo que morreu há mais de vinte e quatro séculos se associar a investigação de novas metodologias da educação à distância? Qual contribuição um filósofo que afirma nada saber e que não deixou nada escrito pode colaborar com o problema atual? Desse modo, por mais que Sócrates não tenha deixado muito coisa por escrito, ele deixou vivos diversos pensamentos críticos, os quais foram registrados por seus discípulos. Ele deixa também uma preocupação em tornar as pessoas críticas e responsáveis pelo seu próprio conhecimento, assim, a autonomia é também um assunto importante em suas obras.

Nesse viés, nos dias de hoje, as bases para uma educação crítica, libertadora e autônoma defendidas por Sócrates, entram em confronto com o modo pelo qual a educação à distância vem caminhando na atualidade. Nesse sentido, o caráter de dependência da maioria dos alunos de EAD em relação ao professor na espera de seu comando para a realização de estudos e atividades representa um déficit no desenvolvimento crítico e autônomo citado, fazendo com que o aluno não consiga criar soluções de forma independente. Esse problema se assemelha à educação desenvolvida na antiguidade e foi rapidamente percebido por Sócrates. Desse modo, ao nos basearmos no modelo autônomo proposto pelo filósofo, podemos apresentar um princípio de solução para esse momento remoto que estamos lidando: o uso em menor escala de ferramentas como livros, cadernos e conteúdos prontos e em maior escala do diálogo. Dessa forma, o diálogo (maior ferramenta do método pedagógico socrático) terá um poder significativo na aprendizagem. 

Portanto, assim como Sócrates defendia o diálogo, podemos também traçar um paralelo quanto ao conceito de educação libertadora e transformadora de Paulo Freire. Ambos defendiam o diálogo e a troca de opiniões e experiências como pilares para alavancarem a educação. Ainda que Sócrates seja um filósofo da antiguidade, temos plena certeza de que seus ensinamentos perduram até os dias de hoje, fazendo com que possamos vê-los em nosso dia a dia, e, agora, na educação à distância, pelo fato de estarmos vivendo uma pandemia. Logo, é preciso que abordemos em sala de aula os conceitos dos dois estudiosos para que num futuro breve a educação seja realmente transformadora, assim como ela foi na antiguidade. Afinal, o conhecimento muda o mundo.

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*Trabalho feito pelas discentes Marcella Pereira e Maria Catarina Brandão do curso de Letras Português- Literatura na Universidade Federal do Rio de Janeiro em caráter de exigência da disciplina Filosofia da Educação ministrada pela professora doutora em Filosofia pela USP, Gisele Batista Candido da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Referências Bibliográficas:

  • Sócrates e a Educação. Disponível aqui
  • TEIXEIRA, Miguel; WOLF, Andreia; SOUZA, Debora; OLIANI, Luiz Henrique. "A contribuição de Sócrates para o Método de Ensino Aprendizagem a distância". Revista Científica UNAR, Araras, SP: 2015. Disponível aqui.



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